Prato tradicional da culinária mineira está garantido nos estádios de Belo Horizonte durante a Copa do Mundo de 2014
Osvaldo Reis
Parafraseando o saudoso cantor e compositor Gonzaguinha, “dez entre dez mineiros preferem feijão”. A paixão dos mineiros pelo feijão, mais especificamente pelo feijão tropeiro, não foi esquecida pelos responsáveis pela reformulação do Mineirão, maior palco do futebol em Minas Gerais. Mas por pouco o tropeiro não ganhou cartão vermelho.
A presença da iguaria na Copa do Mundo de 2014 chegou a ser vetada pela Fifa, que credencia apenas restaurantes e lanchonetes internacionais nos eventos que organiza. Mas para a felicidade dos mineiros, o prato típico teve sua presença confirmada nos bares e restaurantes durante a competição, após uma série de reuniões entre a Prefeitura de Belo Horizonte, Governo do Estadode Minas Gerais e representantes da entidade máxima do futebol.
“O tropeiro já está convocado para a Copa”, afirma o diretor-geral da Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais (Ademg), Ricardo Raso. “Trata-se de uma tradição dos estádios da capital, não apenas do Mineirão, mas também do Independência. Levamos essa informação para os representantes da Fifa, que atenderam nossos pedidos e garantiram que o prato estará disponível para os torcedores não apenas na Copa do Mundo, mas já na Copa das Confederações, em 2013”, completa.
Os dirigentes mineiros tiveram que se empenhar para convencer a Fifa da importância do tropeiro no Mineirão. “Mostramos que o tropeiro já atingiu o nível de atração turística em Belo Horizonte. Muitos torcedores dizem que a ida ao Mineirão só é completa se houver tropeiro no cardápio”, afirma o assessor de comunicação do Comitê de Belo Horizonte para a Copa 2014, Rogério Bertho.
A importância do Mineirão ficou evidenciada no fim do último mês de abril, quando os responsáveis pela reformulação do estádio comemoraram os primeiros 100 dias de obras com um almoço festivo batizado de “Tropeirão do Mineirão”. Na ocasião, operários e autoridades se reuniram em tendas armadas no antigo gramado para saborear o prato típico.
Fechado em 2010 para as reformas visando a Copa do Mundo, o Mineirão teve todas as concessões de bares e restaurantes encerradas. A Ademg ainda não definiu quando será aberto novo processo licitatório, mas garante que a qualidade dos alimentos servidos e do atendimento serão itens obrigatórios para quem quiser disputar um espaço. “Os amantes do tropeiro podem ficar tranquilos, a qualidade no preparo vai aumentar muito”, diz Ricardo Raso. O novo estádio terá 28 bares e restaurantes, dez a menos do que tinha antes da reforma.
Alívio para comerciantes
Arroz, feijão tropeiro, torresmo, carne de porco, couve e ovo. Essa é a composição básica do tropeiro, vendido no Mineirão desde sua inauguração, em 1965. E para a felicidade de quem o comercializa, seguirá como iguaria principal do estádio. “É um alívio saber que o tropeiro não será extinto. Não consigo nem pensar no Mineirão sem ele”, afirma a proprietária do bar Tropeiro do 13, Eliane Assis.
Com a reforma do Mineirão, Eliane segue vendendo o tropeiro no bairro Planalto, Zona Norte de Belo Horizonte. No estádio, ela era a dona do restaurante instalado próximo ao portão 13, que deu o nome ao estabelecimento. “As pessoas vêm aqui para lembrar do Mineirão, mas não é a mesma coisa. Espero que essa reforma termine logo”, desabafa.
Acostumada a vender cerca de 700 pratos em um jogo de grande porte, Eliane está preocupada com o processo de licitação para bares e restaurantes do novo estádio. “Espero que dêem chance para que pequenos comerciantes, como eu, possam ter chance de disputar uma vaga. Tenho medo que o Mineirão fique muito elitizado”.
Hoje recluso na Arena do Jacaré, o comerciante Rogério Assis tem o mesmo medo. “Já tive prejuízo por ter que vir para Sete Lagoas. Nem quero pensar em ficar de fora do Mineirão”, diz. Dono de um dos bares instalados na Arena, Rogério afirma não vender 30% do que vendia no estádio da Pampulha. “Aqui é muito pequeno, são poucos torcedores. Mesmo estando bem instalado, não chego a vender 100 tropeiros por dia”. Na Arena, ele vende o tropeirinho (porção menor, sem ovo) por R$ 7 e o tropeiro tradicional por R$ 10.
Torcedores satisfeitos com a manutenção do tropeiro
Quem mais comemorou a permanência do tropeiro no Mineirão durante a Copa do Mundo foram os torcedores belo-horizontinos, frequentadores costumeiros do estádio. Para o estudante Abner Faustino, “ir ao Mineirão e não comer tropeiro é a mesma coisa que não ir ao estádio. É uma tradição do estádio, da cidade. Se na Alemanha eles servem salsichões nos estádios, no Mineirão tem que ter tropeirão”, diz.
Assistente de apuração em Vespasiano, Leonel Pacheco concorda. “O prato de feijão tropeiro está enraizado na cultura de quem vai ao Mineirão. Ele tem o mesmo significado do acarajé para os baianos ou da moqueca de peixe para os capixabas”, entende. Rogério Bertho, repórter da rádio Itatiaia nos anos 90, se recorda de quando chegava mais cedo ao estádio para saborear o tropeiro. “Eu ia pra jornada mais satisfeito e animado”, diz
A permanência do tropeiro, contudo, não é unânime. Apesar de ser querido pela maioria dos torcedores, há quem tenha ficado triste com a notícia. É o caso da professora universitária Márcia Macedo, de Barbacena. “Eu detesto o tropeiro. Os torcedores não têm educação, fica uma sujeirada nas cadeiras e arquibancadas”, protesta.
Se não é unanimidade, o tropeiro tem atrás de si a preferência da maioria dos torcedores que vão ao Mineirão para se alegrar ou sofrer com seu time do coração. Ele continuará servindo para fazer com que atleticanos, cruzeirenses e americanos saiam do estádio rindo de barriga cheia – de tropeiro - com as vitórias de seus times. Os auto-falantes do estádio vão poder conclamar: “Ademg informa! Copa do Mundo com tropeiro é muito mais gostosa!”
Mineirão será palco da semifinal da Copa do Mundo
A FIFA confirmou em Outubro, os jogos da Copa do Mundo de 2014. Belo Horizonte sediará seis partidas. Quatro serão na fase de grupos, sendo três desses com países cabeças de chave. Também um jogo de oitavas de final onde provavelmente o Brasil estará presente e uma das partidas semifinais está garantida para o Mineirão. A Copa das Confederações que será realizada em 2013 no Brasil, terá quatro jogos no Mineirão, inclusive a grande semifinal.
Foto: Creative Commons