23 de novembro de 2011

Caminhas em vias urbanas é uma boa escolha?

Solange Baker

Os riscos são maiores do que os benefícios. É o que ressalta o Dr. Edilson Corrêa, pneumologista, diretor de Promoção da Saúde da Secretaria Estadual de Saúde (SES).
Corrêa afirma que todas as pessoas, tanto saudáveis quanto doentes, deveriam adquirir esse hábito por uma melhor qualidade de vida. Mas se essa prática não ocorrer em locais apropriados, ou seja, em um ambiente arejado, arborizado e tranquilo, os objetivos não serão alcançados satisfatoriamente. “A atividade física poderá ser mais maléfica do que benéfica”, observa.
É o caso da pista de caminhada na Via Expressa, que atende os moradores do bairro Coração Eucarístico, região noroeste da Capital. O “cercadinho”, como é carinhosamente chamado pelos usuários da pista, está instalada em meio a uma imensidão de carros que transitam pela via o dia todo. O pneumologista reprova terminantemente qualquer atividade física nessa área. “Como médico, não recomendaria aos meus pacientes. Não só nos horários considerados mais carregados, mas em nenhum horário”.
A dona de casa Cristina Fernandes, 51 anos, faz caminhada há cerca de quatro anos no “cercadinho”. Ela não tem nenhum problema de saúde, caminha apenas para manter a forma. Para ela a vantagem da pista é o fato de proporcionar uma sequência e um ritmo regular nos movimentos, por ter um percurso regular, além de ficar perto de sua casa. E a desvantagem é a poluição, o barulho e o perigo para atravessar a avenida que dá acesso à pista. "O único espaço nessa região é esse aqui, não tem outro", lamenta.
Outro usuário do “cercadinho”, o aposentado Reino Sérgio da Silva, 76 anos, usa o local por causa da proximidade com sua casa. Ele considera que, por ser uma região movimentada, não corre risco de assalto. “O médico recomendou para controlar o peso, por causa da minha saúde”. Reino mostra preocupação com o risco que corre para atravessar a avenida, devido à sua idade avançada, além do cheiro forte dos gases emitidos pelos veículos.
De acordo com o pneumologista Edilson Corrêa, um dos principais poluentes da atmosfera, o monóxido de carbono, é um dos gases emitidos pelos escapamentos dos automóveis. “A pessoa que está fazendo atividade física demanda mais oxigênio, e se ela está realizando a prática de exercícios em uma região como essa é obvio que o efeito provocado nos pulmões não será saudável, pois ela estará respirando gases tóxicos”.
As doenças mais comuns e frequentes a quem se expõe aos ambientes poluídos são a asma e a bronquite. Os portadores de doenças crônicas respiratórias e aqueles que fazem controle de enfisema pulmonar terão seus quadros agravados, se respirarem com frequência gases poluentes que são eliminados com a combustão da gasolina.
Corrêa lembra que Belo Horizonte, na década de 1920, era considerada a capital com índices de melhor qualidade do ar. “As pessoas vinham para Belo Horizonte para se tratar de doenças respiratórias, como a tuberculose. Agora isso não acontece mais. É louvável a criação das pistas de caminhada, mas é preciso adequá-las a um ambiente saudável", alerta.
O exercício físico comprovadamente diminui os riscos de doenças cardiovasculares, afirma a bióloga Myrian Morato Duarte, analista e pesquisadora de Saúde e Tecnologia da Fundação Ezequiel Dias (FUNED). Ela salienta que o exercício físico age sistematicamente no controle da obesidade, hipertensão, colesterol e fumo.
“Há uma grande distinção entre o esquema de exercícios direcionados para adquirir força e resistência para competições, que tem pouco efeito no condicionamento cardíaco e o necessário para aumentar a resistência cardiovascular, que é o exercício aeróbico executado em uma caminhada ou corrida. O exercício deve ter duração suficiente para causar consumo de oxigênio, e deve ser realizado com determinada regularidade para ter efeito cardiovascular. Neste caso, todos os órgãos envolvidos na obtenção e transporte de oxigênio, pulmões, coração, vasos sanguíneos e músculos, serão afetados e se tornarão mais eficientes com o treinamento”.
Com o objetivo de conhecer os motivos que levaram a escolha da Via Expressa, na região noroeste, para a instalação do “cercadinho”, considerando que é uma via com um fluxo intenso de veículos em praticamente todos os horários, a Secretaria de Obras e Infraestrutura da Prefeitura de Belo Horizonte foi procurada, mas preferiu não se pronunciar.

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