Os riscos são maiores do que os benefícios. É o que ressalta o Dr. Edilson Corrêa, pneumologista, diretor de Promoção da Saúde da Secretaria Estadual de Saúde (SES).
É o caso da pista de caminhada na Via Expressa, que atende os moradores do bairro Coração Eucarístico, região noroeste da Capital. O “cercadinho”, como é carinhosamente chamado pelos usuários da pista, está instalada em meio a uma imensidão de carros que transitam pela via o dia todo. O pneumologista reprova terminantemente qualquer atividade física nessa área. “Como médico, não recomendaria aos meus pacientes. Não só nos horários considerados mais carregados, mas em nenhum horário”.
A dona de casa Cristina Fernandes, 51 anos, faz caminhada há cerca de quatro anos no “cercadinho”. Ela não tem nenhum problema de saúde, caminha apenas para manter a forma. Para ela a vantagem da pista é o fato de proporcionar uma sequência e um ritmo regular nos movimentos, por ter um percurso regular, além de ficar perto de sua casa. E a desvantagem é a poluição, o barulho e o perigo para atravessar a avenida que dá acesso à pista. "O único espaço nessa região é esse aqui, não tem outro", lamenta.
Outro usuário do “cercadinho”, o aposentado Reino Sérgio da Silva, 76 anos, usa o local por causa da proximidade com sua casa. Ele considera que, por ser uma região movimentada, não corre risco de assalto. “O médico recomendou para controlar o peso, por causa da minha saúde”. Reino mostra preocupação com o risco que corre para atravessar a avenida, devido à sua idade avançada, além do cheiro forte dos gases emitidos pelos veículos.
De acordo com o pneumologista Edilson Corrêa, um dos principais poluentes da atmosfera, o monóxido de carbono, é um dos gases emitidos pelos escapamentos dos automóveis. “A pessoa que está fazendo atividade física demanda mais oxigênio, e se ela está realizando a prática de exercícios em uma região como essa é obvio que o efeito provocado nos pulmões não será saudável, pois ela estará respirando gases tóxicos”.
As doenças mais comuns e frequentes a quem se expõe aos ambientes poluídos são a asma e a bronquite. Os portadores de doenças crônicas respiratórias e aqueles que fazem controle de enfisema pulmonar terão seus quadros agravados, se respirarem com frequência gases poluentes que são eliminados com a combustão da gasolina.
Corrêa lembra que Belo Horizonte, na década de 1920, era considerada a capital com índices de melhor qualidade do ar. “As pessoas vinham para Belo Horizonte para se tratar de doenças respiratórias, como a tuberculose. Agora isso não acontece mais. É louvável a criação das pistas de caminhada, mas é preciso adequá-las a um ambiente saudável", alerta.
O exercício físico comprovadamente diminui os riscos de doenças cardiovasculares, afirma a bióloga Myrian Morato Duarte, analista e pesquisadora de Saúde e Tecnologia da Fundação Ezequiel Dias (FUNED). Ela salienta que o exercício físico age sistematicamente no controle da obesidade, hipertensão, colesterol e fumo.
“Há uma grande distinção entre o esquema de exercícios direcionados para adquirir força e resistência para competições, que tem pouco efeito no condicionamento cardíaco e o necessário para aumentar a resistência cardiovascular, que é o exercício aeróbico executado em uma caminhada ou corrida. O exercício deve ter duração suficiente para causar consumo de oxigênio, e deve ser realizado com determinada regularidade para ter efeito cardiovascular. Neste caso, todos os órgãos envolvidos na obtenção e transporte de oxigênio, pulmões, coração, vasos sanguíneos e músculos, serão afetados e se tornarão mais eficientes com o treinamento”.
Com o objetivo de conhecer os motivos que levaram a escolha da Via Expressa, na região noroeste, para a instalação do “cercadinho”, considerando que é uma via com um fluxo intenso de veículos em praticamente todos os horários, a Secretaria de Obras e Infraestrutura da Prefeitura de Belo Horizonte foi procurada, mas preferiu não se pronunciar.
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