Pesquisadores e entrevistadores free-lancer se livram da rotina do trabalho e ganham dinheiro com isso
Edward Magalhães
Quem já passou por pontos muito movimentados de Belo Horizonte, certamente, já viu um pesquisador. Na Praça 7, no Mercado Central, na Praça da Liberdade, em estações do metrô... Lá estão eles, de prancheta e caneta nas mãos, abordando as pessoas que passam com as mais diversas perguntas, sempre muito educados, ouvindo e anotando com atenção as respostas.
A pesquisa, hoje, é uma ferramenta indispensável para o mercado. É por meio dela que empresas tomam decisões estratégicas, decidem a melhor forma de criar e lançar um novo produto. Também é fundamental para partidos políticos na hora de decidir quem é o melhor candidato para cada pleito, os rumos que uma campanha deve tomar e como cada atitude pode influenciar nas eleições.
Essa importância faz com que a demanda por entrevistadores aumente de modo considerável. Há muita procura por mão-de-obra por parte dos institutos de pesquisa e das empresas especializadas em coleta de dados. O ano eleitoral está por vir e vai aquecer ainda mais o mercado para a contratação de pesquisadores. “É a época de ouro para aumentar o número de vagas em pesquisas políticas”, diz a diretora do V1 Inteligência Estratégia, Anice Pennini. “É um mercado que está se abrindo, é um ano em que as coisas vão acontecer”. Sua sócia, Flávia Lage, acrescenta: “A procura pode aumentar em 100%”.
Trabalhar com pesquisa, entretanto, não se resume a fazer perguntas. “Fazer uma pesquisa é muito mais que apenas aplicar um questionário de acordo com as instruções recebidas”, diz Flávia. Segundo Anice, é preciso preparo. “Quando se entrevista uma pessoa, é necessária a colaboração do entrevistado. Envolve postura na abordagem, conquista. Vai do jeito de falar, da paciência em esperar as respostas, de entender as negativas”.
O perfil dos candidatos para o cargo de pesquisador é bastante democrático. De acordo com Anice, é necessário ter boa vontade, compreensão do trabalho que será feito e seguir corretamente as regras. Essa visão é compartilhada por Alexandre Souza, diretor da Real Pesquisas, empresa especializada somente na coleta de dados. “É preciso entender a importância da pesquisa para o mercado e ter uma visão globalizada do processo. Saber se comportar numa favela ou em um bairro nobre. O entrevistador tem que ser um camaleão, saber se adaptar às situações”.
A idade não é problema para quem deseja trabalhar com pesquisa. As empresas contratam desde jovens de 18 anos até senhoras com mais de 40. Postura profissional, entretanto, é fundamental. “A coisa mais importante que pedimos para nossos pesquisadores é responsabilidade. Não podem encarar o trabalho apenas como um bico”, diz o também diretor da Real Pesquisas, Allan Queirós. Alexandre completa: “Buscamos pessoas que tenham uma boa dinâmica de conversa, não meros perguntadores”.
Os pesquisadores são contratados pelos institutos e empresas para contratos específicos, não possuem vínculo empregatício. O pagamento é feito sempre por produção e os cálculos podem ser baseados pelos dias trabalhados ou pelo número de questionários aplicados. Os ganhos são variáveis, podendo chegar até R$ 1500 por mês. A jornada dura entre seis e oito horas, com a possibilidade do entrevistador montar seu horário.
Um dos pontos altos para quem trabalha diariamente com pesquisa é a total ausência de rotina no emprego. Afinal, faz trabalhos completamente distintos, lidando com pessoas e locais diferentes. Essa é a visão de Dário Ribeiro, que desde 1995 atua na área. “O contato com o público, que muda de acordo com o objetivo da entrevista, e a chance de conhecer assuntos sobre os quais não tinha muita noção. Faz com que o trabalho seja muito interessante”. A possibilidade de viajar também é destacada. Sílvia Vianna, entrevistadora há quase 20 anos, diz conhecer boa parte do Brasil graças à pesquisa. “Já fui a mais de 100 cidades”.
Dário já teve a oportunidade de voltar a trabalhar com carteira assinada, como auxiliar administrativo, mas não conseguiu ficar muito tempo longe da pesquisa. “Já tive empregos formais três vezes nesses últimos 15 anos, mas logo voltei a ser entrevistador”. Segundo ele, a pesquisa tem pontos fracos, como o tempo em que fica parado, sem trabalhar. A falta de estabilidade incomoda, principalmente pela questão de segurança, mas as vantagens de ser pesquisador compensam isso. “Quando perguntam qual é a minha profissão, respondo com orgulho que sou pesquisador. É a minha vida”, completa.
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