Visita de crianças excepcionais muda rotina do zoológico de Belo Horizonte
Lino Ramos do Nascimento
Terças-feiras são dias diferentes no Zoológico de Belo Horizonte. Por ser o único dia da semana quando a entrada de pedestres no parque é gratuita, os funcionários estão habituados a lidar com um número maior e mais variado de visitantes. Mas no último dia 25 de outubro, contudo, um grupo especial alterou a rotina de quem trabalha todos os dias atendendo ao público.
Vinte e nove alunos do Centro Municipal de Apoio Educacional de Itabira – Cemae -, todos com necessidades especiais e limitações físicas estiveram no Zoológico para conhecer, alguns pela primeira vez, animais silvestres. Entre cinco e 18 anos, os alunos, alguns com deficiência visual, aproveitaram o dia para complementar os ensinamentos que recebem de maneira teórica, nas salas de aula.
“Gato também mama?”, perguntou o pequeno Tadeu Henrique. Sua sensibilidade, alheia à cegueira que carrega desde o nascimento, fica evidente. A sutileza do toque manual se torna uma estratégia para quem não vê e não fala. Foi assim ao manusear um dente de jacaré ou o chocalho de uma cascavel, cujo barulhinho gostoso quebrou o silêncio do ambiente.
“A visita ao zoológico ajuda nas atividades diárias, como saber se vestir sozinho, atender o telefone ou comprar pão na esquina. A criança que possui algum tipo de deficiência é muito privada. Essa vinda ao zoo permite que eles vivenciem um mundo diferente”, explica a terapeuta ocupacional Adriana Duarte, uma das responsáveis por acompanhar os alunos. “Quando eles retornarem para a sala de aula, irão assimilar melhor as atividades em classe”, completa.
Segundo Adriana, foi a primeira viagem mais longa dos alunos, cerca de 100km. “Só a viagem em si, no ônibus, já foi uma experiência nova. E o atendimento especial que receberam por parte da Fundação Zoo-Botânica (FZB-BH) deixará neles uma marca positiva para sempre. Quando eles poderiam tocar um jabuti, uma cobra ou um coelhinho?”, diz a terapeuta.
Depois de conhecerem o porquinho da Índia e o bicho-pau, inseto que tem como mecanismo de defesa a camuflagem, a festa da criançada veio com um simples ovo de galinha. “Ele é pequeno, o de avestruz é muito maior”, constatou um dos alunos. Conhecer a textura das mudas de pele das serpentes assustou um pouco, mas o medo logo se dissipou. “As peles não mordem”, disseram, aos risos.
“Os alunos ouvem falar do macaco, do avestruz. Hoje foi o dia de saberem como são esses animais. Eles puderam conhecer coisas novas, uma nova cidade. O contato com os profissionais do zoo ajuda na percepção tátil e auditiva, ou seja, ele aprende a conhecer, de forma mais global, as particularidades que não são possíveis de ensinar em sala de aula”, explica a psicóloga educacional Olga Alvarenga. “A sociedade ainda não aprendeu a lidar com esses alunos portadores de necessidades especiais”, finaliza.
Acostumado a lidar com milhares de visitantes todos os dias, o tratador da Casa de Répteis, Paulo Emídio, se emocionou com a presença das crianças. “Quem tem tudo que a vida pode dar, que enxerga, não valoriza isso. Apenas finge que sabe viver. Essas crianças que a sociedade chama de cegas, aleijadas, enxergam muito mais do que a gente. Eles sabem valorizar a própria vida”, analisa. “Aqui entre os répteis, eles aprenderam que as cobras não são piores nem melhores que outros animais. As pessoas têm cisma disso”, diz.
Toda a visita da criançada foi acompanhada por uma equipe do Cemae e da FZB-BH, comandada pela bióloga e educadora Rizzia Botelho. “Nossa proposta foi ampliar o que os meninos aprendem dentro das paredes da sala de aula. Foi uma forma de incentivá-los a sair da privacidade que a sociedade muitas vezes impõe para a vida delas, somente pelo fato de terem necessidades especiais”.
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